domingo, 28 de fevereiro de 2010

CARNAVAL



O ano todo entre retalhos e festins

Aprendendo o enredo,

Ensaiando o passo,

Vestindo o personagem,

Treinando a coreografia,

Ingredientes de um sonho

Preparado por todo um ano

E realizado em 60 minutos

Passando na avenida,

Bateria, comissão e passistas,

Mestre sala, porta bandeira, sambistas...

De um amor são as pistas,

De uma paixão,

Nas cores da escola,

Nas cores do coração,

Que se fantasia de dourado,

De paetês e lantejoulas...

O samba no pé,

O enredo na voz,

E a escola no coração,

Pulsando, batendo, levando...

Levantando a arquibancada,

Saudando a comissão,

Levantando aos pulos o coração,

Conquistando ponto a ponto,

A vitoria de um sonho todo,

O trabalho do ano todo,

Artistas são todos, são tantos,

E tudo vai tomando corpo,

Perfeição,

Uma realidade simulada,

Uma festa toda dourada,

Luzes, bateria, vitoria cantada...

E o sonho vira verdade,

Que vira festa...

E por mais um ano começa,


Vera Celms


NOTURNA



Sou a noturna,

Sentada na sua janela

A espreitar,

A noite toda,

O seu sono

Te espero a cada manhã

Pra ofuscar o sol

No brilho do seu sorriso

E do seu olhar

Mas, ofuscado

É o meu olhar,

Pela ausência da sua imagem

No horizonte vazio

A noite toda,

Fazendo planos,

E a manhã toda

Lamentando sua falta

Lanço meu cio,

Em sua direção, no vento,

E não me retorna nada,

Só o eco da solidão...

A trilha vazia,

Sem marcas, nem pegadas,

Sem você

Não consigo farejar sua proximidade

Não consigo nutrir meu peito,

Escuto seu uivo ao longe

E na tua procura,

Nada encontro...

Só o vento atrapalhando meu faro

Deixando confuso

Mesclando tantos cheiros,

Que me procuram em vão,

Se é só você que busco...

Sou a noturna,

Sentada na sua janela, sempre...


Vera Celms


domingo, 21 de fevereiro de 2010

ERA - ANGEL

QUADRADICE



Pego todas as suas formalidades,

Endosso os comentários de chatice,

Adoço o papo pra segurar mais um pouco,

Nada vai...

Jogo café... dormi...

Jogo vodca, estragou a bebida,

Suco de laranja, ficou azedo demais,

Tomei seus comentários,

Usados, por puro desconhecimento de mim,

Misturei com o desinteresse que driblei,

por tanto tempo,

Fiz ouvidos de mercador,

Para só algumas observações,

Me fingi de morta,

Mas, você veio me cutucar,

Com seus valores formais

Borrifei minha paciência,

Com suas atitudes impensadas,

Pelas quais brigou comigo, sem razão,

Sem noção...

E minha paciência, derreteu toda,

Aí vi, que não tinha jeito...

Tanto tentei me aproximar,

E no momento,

Em que seu interesse aumentou,

Aumentou também meu olhar,

Do "cuida" da minha vida...

O que eu posso querer?

Com a sua mania de pobreza,

Com a sua pena de si mesmo,

Com o seu monte de problemas,

Que não quer resolver?

Emprestar meus ouvidos?

Minha atenção?

Desculpa...

Dessa vez, fui eu, talvez a injusta,

Bloqueei você na minha lista

Já que não a usava há tanto tempo,

E fiz o que, por muito menos,

Já fizeram comigo...

Sumi... fazer o que?

Contra a sua quadradice

Eu sumo...


Vera Celms

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

SOU ANTIGA


Sou da época e pela revolução sexual.

Nasci quando os soutiens foram queimados em praça pública, reivindicando igualdade para as mulheres.

Quando o primeiro soutien era tão romântico, para as meninas, quanto a primeira calça comprida para os meninos! (isso consegue ser mais antigo que eu, um pouquinho...rs...).

Um tempo depois das bruxas serem queimadas por castigo ou represália.

Logo depois, que os livros foram queimados para não propagar idéias reacionárias.

Mas, também sou do tempo, dos bailinhos na garagem, no barracão. Onde as brincadeiras adolescentes eram feitas a meia luz, no escurinho. Escondidinhos de pais e mães ou outros adultos, caretas.

Hoje essas brincadeiras, estão sérias demais. Acontecem a luz do dia, sob câmeras dos celulares, ou digitais, de completos desconhecidos. Com trilha sonora tão sugestiva e justa quanto as poucas roupas.

Animada a brincadeira! sem nenhuma dúvida, mexe até com os mais pudicos. Mas também mexe com o juízo das pessoas que freqüentam esses lugares.

Os meninos não fazem mais tudo aquilo que as meninas provocam, com “medo” de extrapolar. As meninas fazem muito mais pra provocar os meninos, com medo de não agradar.

Elas fazem muito além do que os meninos possam supor, e as famílias também.

Não bastava poder brincar em casa?

Na minha adolescência não podíamos fazer isso em casa, era atrás da casa, embaixo da casa, atrás ou dentro dos carros, atrás da arvore, nas ruas escuras, escondidinho.

Excitante era imaginar que alguém pudesse ver. Hoje todos olham desveladamente. Não há mais graça, senão àqueles que procuram o visual para se excitarem.

As meninas, logo menos, correrão o risco de não mexerem mais com a libido de seus meninos.

Mexerá quem se guardar um pouco, quem esconder. Quem se dá, se dispõe, se oferece desta forma, não excita mais, é comum demais, é o que todos querem, é o que todos tem.

Gostoso é namorar, guardar pra depois, para o próximo encontro, para o cinema, para a balada; aquela passadinha de mão, aquele decote mais ousado, aquela minissaia mais “juvenil”. Aquela intenção de realizar a fantasia.

Onde está a fantasia? O que poder imaginar? Tudo literalmente está na mão, ou em outro lugar.

Hoje as meninas são tão provocativas, que parecem ter trocado de lugar com os meninos de antigamente, tão “safados”...

É uma disputa desleal. Os meninos para chamarem a mesma atenção precisam de séculos de academia, de sorte genética, de liderança e muita, mas muita ousadia e muita inconseqüência.

Hoje o “macho” não procura mais o “cheiro do cio”, mas é o cio que corre atrás dos machos; que correm assustados, pela excessiva facilidade. Afinal, “quando a esmola é demais, o santo desconfia”, quem já não ouviu este ditado tão antigo?

A estas festinhas costumam dar o nome de bailes Funk... ou somente de Funk, corrijam-me se estiver errada.

Será que a postura dessas fêmeas, sozinhas na rua, na casa dos pais ou diante do perigo sexual iminente, permaneceria a mesma?

Ou estas meninas proclamariam o recato? O engano? E negariam a postura gravada em tantas câmeras digitais? Quantos mega pixels serão necessários, até que a ficha caia?

Quantos vídeos serão protestados judicialmente, depois de tornados públicos, para que essas meninas tenham noção da exposição a difamação e a humilhação publica a que se submetem a cada festinha?

Eu sou antiga, mas nunca deixei de ter prazer na vida, e na medida certa, e até mais, para ser feliz.

Perdoem-me as exceções.

Vera Celms


domingo, 14 de fevereiro de 2010

SANGUE NO OLHAR



Já usei todas as lâminas,

Todos os argumentos,

pra me cortar.

Já te cortei,

com todas as palavras,

feitas para sangrar,

Já inventei você,

Reinventei sua presença,

Até acabar com ela de vez...

Com o diabo preso na garganta,

Te odiei, te ofendi, te maldisse,

Te expulsei do meu peito,

A duros golpes...

Das minhas lembranças,

Da minha memória tátil,

Olfativa, visual,

Seu gosto já amarguei,

A saudade de você virou amargura,

Decepção,

E agora volta,

Com uma desculpa esfarrapada entre as pernas,

Rala, fraca, indecente,

Querendo se desculpar,

Não deve ter noção mesmo,

Do que é ignorar,

Do que é fazer pouco de uma mulher...


Vera Celms