segunda-feira, 27 de setembro de 2010

ATADO

Já me permiti amarras,

ou a elas me submeti

Sem visão, sem opção,

Sem maturidade

Por pouca idade,

Só por isso, te disse não.

Saí então na contra mão

Atropelando, desvairada,

Chorando, com a vista embaçada,

Confusa, mal vi seu vulto partir

E no horizonte sumir

Imaginei como fora difícil

O bater do portão,

Muito tempo tentei o portão abrir

Despertar num novo porvir,

Acordar do pesadelo

Te encontrar camuflado no relevo,

Tanto andei

Tanto chamei

Segui por todo o caminho,

olhando pra trás

vigiando todos os lados

mas, eram tantos os atalhos

e outra direção segui

mas, nunca esqueci,

jamais desisti,

E, se um dia renunciei, obrigada

Hoje te abraço atado

Submisso, permissivo, por circunstancias obrigado

Respeitando as suas opções

Adequando condições

Afinal, ser feliz contigo já basta...

Vera Celms

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

MEU IPÊ AMARELO



Nasceu na minha retina,

Quando eu era bem menina,

E, por tanto gostar de amarelo,

Nunca vi nada mais amarelo por perto,

E ainda, saudava meu aniversário...


Te chamava de “pé de tapete”,

Pois quando tuas flores caiam,

Forravam o chão por completo,

E eu exaltada, por menina que era,

Maravilhada com aquela quimera amarela,

Brincava e saltitava no chão colorido,

E enfeitava o cabelo comprido,

E desenhava, e pintava, e sonhava,

Fazia pra escola o mais longo caminho,

Só pra visitar, na alameda, o Ipê,

E abraçava teu tronco,

O cheiro da tua casca na roupa sentia,

E passava a lembrar por todo o dia,

Mas, o tempo passou voando,

E não pude mais te visitar,

Um dia voltei lá pra te ver,

E não te encontrei mais,

Então, minha retina,

Que tua imagem ainda tinha,

Pediu que te transformasse em poesia,

Meu Ipê amarelo...

Vera Celms

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

SONETO DA SABEDORIA


Coisas tantas que não aprendemos,

Outras tantas que não ensinamos

Se preciso delas nos valemos

Se ouvidas, não nos esqueçamos


Casos o vento conta, neblina

Flores colhidas pelo caminho

Regras, jurisprudência divina

Tantas vezes com muitos espinhos


Expressando parecemos loucos

O que só nossa alma conhece

As cicatrizes do nosso corpo


O saber, que corações aquece

São rotulos tão particulares

Que fazem dos nossos mundos lares.


Vera Celms

domingo, 5 de setembro de 2010

SOMBRAS DA SAUDADE


Se um dia o céu,

Desabasse na Terra,

Talvez aqui encontrasse,

Sombras, que de tão densas,

Incorporaram-se ao chão,

as paredes,

as portas que nunca se abrem,

Como advindas das profundezas,

ou como se as tentassem invadir,

Sombras que me confundem,

Impregnadas na pele,

No gesto, na respiração,

Suspirando em cada canto,

Sombra de quem partiu,

Lembranças indestrutíveis,

que como ostras,

são apreciadas vivas,

Denunciadas por perfumes,

Por suores ou arrepios,

Por momentos fugidios,

Por lágrimas insones,

em prostradas noites,

assombradas por doces vozes,

por sussurros velados,

incuráveis, insondáveis,

imponderáveis,

inesquecíveis,

insuportáveis,

sombras da saudade...

Vera Celms


Chico Buarque de Hollanda - Vai passar (1984)

(Sobre a maldita ditadura! mas, é uma das minhas composições preferidas, ou mais preferidas de um dos meus grandes ídolos)